segunda-feira, 2 de maio de 2011

JUSTIÇAMENTOS

Dentre o extenso rol de crimes violentos cometidos pelos comunistas brasileiros - assassinatos, assaltos, explosões de bombas, sequestros de diplomatas e de aviões, etc - um deles tornou-se o símbolo maior da violência desmedida, consequência inevitável de uma doutrina genocida: o denominado, por eles mesmos, de justiçamento.

O justiçamento foi empregado para assassinar os próprios comunistas considerados traidores e os seus inimigos, os integrantes das forças legais de segurança e todos aqueles que com elas colaboravam.

Não foram mortes causadas na paixão ou no ódio de um confronto. Não foram mortes involuntárias, surgidas por acaso, no fragor de alguma ação violenta. Não foram mortes aleatórias, cujos nomes só surgiam depois da explosão de uma bomba, depois de um assalto, depois de um sequestro. Não foram nada disso.

O justiçamento praticado pelos comunistas foi o crime premeditado, extremadamente planejado, o crime frio e cruel de uma doutrina que sobrepunha os fins aos meios.

O justiçamento era o último capítulo de um longo processo, que começava por uma denúncia, que passava pelo julgamento de um pseudo "tribunal revolucionário", que gastava muito tempo em minuciosos levantamentos, que organizava um grupo de execução com militantes travestidos de carrascos e que se encerrava com o sangue do "justiçado" salpicando a propaganda do ato cometido, que escarnecia a vítima e, quixotescamente, tentava justificar um mero assassinato. E, tudo isso, a sangue frio, com o sangue congelado de uma doutrina que impunha a violência sobre a sociedade tida como algoz.

"Senhores da vida e da morte", os terroristas brasileiros ufanavam-se de que "guerrilheiros" não matam por raiva, nem por impulso, pressa ou improvisação. Matam com naturalidade. Não interessa o cadáver, mas seu impacto sobre o público."

"Donos da verdade", os comunistas brasileiros escarneciam das vítimas e ameaçavam. "Como ele, existem muitos outros e sabemos quem são. Todos terão o mesmo fim, não importa quanto tempo demore; o que importa é que todos eles sentirão o peso da justiça revolucionária. Olho por olho, dente por dente".

Durante o negro período da luta armada, foram quase duas dezenas de justiçamentos conhecidos. Talvez outros ainda não descobertos. Vamos conhecer e nos horrorizar com cada um deles.

Justiçamento 1: ASSASSINATO DE UM MAJOR DO EXÉRCITO DA ALEMANHA

O 1º semestre do ano de 1968 foi um misto de continuísmo e de novidades em relação aos dois anos anteriores.

Continuaram as explosões de bombas, com algumas dezenas espalhando o terror nas principais capitais brasileiras. Continuaram, também, as passeatas estudantis, conduzidas por líderes comunistas, a causarem depredações do bem público e enfrentamentos com a polícia, com mortos e feridos de lado a lado.

Entretanto, um novo fator iria modificar radicalmente o quadro subversivo no país. As grandes e tradicionais organizações comunistas, atingidas pelo fenômeno da atomização, começaram a dar origem a diminutas, mas numerosas organizações, nas quais a luta armada constituía-se na única alternativa para a derrubada do regime militar. O foquismo, teoria centrada nas ideias de Regis Debray e na experiência cubana, preconizava o aparecimento de pequenos grupos, de focos, de "heróis comunistas" que, desencadeando a "violência revolucionária", fariam com que as massas os seguissem e apoiassem a revolução.

Desse modo, surgiram, dentre outras, a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), o Agrupamento Comunista de São Paulo (AC/SP) de Marighella - futura Ação Libertadora Nacional (ALN), o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), a Ala Vermelha do Partido Comunista do Brasil (AV/PCdoB) e o Partido Operário Comunista (POC). Em Minas Gerais e na então Guanabara, dissidentes da Política Operária (POLOP) criaram, em abril de 1968, uma Organização Político-Militar (OPM), três meses depois oficialmente denominada de Comando de Libertação Nacional (COLINA).

Essas novas organizações, determinadas a deporem o governo pela força das armas e a implantarem no Brasil um regime comunista, necessitavam, além do componente político, uma estrutura do tipo militar, ágil e violenta, o que exigia um apoio logístico adequado e sistemático, alimentado por dinheiro e escudado pelas armas. Foi assim que surgiram, nesse ano de 1968, os primeiros assaltos a bancos, a carros-pagadores, a quartéis e a sentinelas.

Na então Guanabara, um grupo de ex-militares, que entraria poucos meses depois para o COLINA, iniciou os assaltos para roubo de armas. Em 17 Mar 68, Severino Viana Callou ("Ivan", "Viana"), ex-sargento da PM/GB, Antonio Pereira Mattos ("Ceará") e Valter Fernandes Araujo assaltaram o Museu do Exército na Praça da República, baleando o sentinela e roubando o seu FAL 7,62. Antonio Pereira Mattos, fardado de militar do Exército, não teve nenhum pejo em atirar contra seu próprio colega. Em 23 de maio, o mesmo grupo roubou a pistola. 45 do sentinela da Base Aérea do Galeão.E foi esse mesmo grupo que inaugurou, na luta suja contra a democracia, uma forma aviltante de assassinato: o denominado "justiçamento", eufemismo criado para tentar justificar crimes planejados, pretensamente legalizados por um pseudo "tribunal revolucionário" e executados "a sangue frio".

Nessa época, começava a despontar o mito de Chê Guevara, morto em 08 Out 67, nas selvas bolivianas. E as organizações subversivas, ávidas em desencadear a "violência revolucionária", buscavam alvos compensadores.

Esse pequeno grupo, integrado por futuros militantes do COLINA, descobriu que o capitão do Exército da Bolívia, Gary Prado, apontado como o matador do Chê, estava estudando na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), na Praia Vermelha. Além de um alvo compensador, seu assassinato serviria para aplacar a sede de vingança dos comunistas de toda a América Latina

Em 01 Jul 68, uma segunda-feira, três integrantes desse grupo, depois de um rápido e sumário levantamento, passaram a seguir, em um Volks de cor gelo, um aluno estrangeiro da ECEME, apontado como sendo o alvo Gary Prado. Na Rua Engenheiro Duarte, na Gávea, dois assassinos desceram do carro e dispararam dez tiros na vítima, que caiu de bruços na guia da calçada, em frente ao auto Chevrolet 27-42-86. Sua pasta de couro marrom desapareceu, levada pelos terroristas.

Morria, naquele instante, simplesmente por engano, o major do Exército da Alemanha, Edward Ernest Tito Otto Maximilian Von Westernhagen, que também estudava na ECEME.

Foi o primeiro justiçamento de uma futura série de quase duas dezenas.

Na época, o crime foi atribuído a marginais comuns. Só mais tarde é que veio a se descobrir que o alvo era outro e que o assalto havia sido praticado por comunistas.

Dos três assassinos, foram descobertos Severino Viana Callou e João Lucas Alves ("Alfredo", "Roberto"), ex-sargento da Aeronáutica. .


Tudo ainda muito pouco satisfatório para uma família alemã ...

F. Dumont



Justiçamento 2: ASSASSINATO DO CAP CHARLES RODNEY CHANDLER

Em 1968, as ações de guerrilha urbana perdiam-se no anonimato de seus autores e, muitas vezes, eram, até, confundidas com as atividades de simples marginais. De acordo com os dirigentes de algumas organizações militaristas, já havia chegado o momento certo para a população tomar conhecimento da luta armada revolucionária em curso, o que poderia ser feito através de uma ação que repercutisse no Brasil e no exterior.

Em setembro, Marco Antônio Braz de Carvalho, o "Marquito", homem de confiança de Carlos Marighela - que dirigia o Agrupamento Comunista de São Paulo (AC/SP), futura Ação Libertadora Nacional (ALN) -, e que fazia a ligação com a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), levou para Onofre Pinto ("Augusto"; "Ribeiro"; "Ari"; "Bira"; "Biro"), então coordenador geral da VPR, a possibilidade de realizar uma ação de "justiçamento".

O Capitão do Exército dos EUA, Charles Rodney Chandler, com bolsa concedida pela "George Olmsted Foundation", era aluno da Escola de Sociologia e Política da Fundação Álvares Penteado, com previsão de terminar o curso em novembro daquele ano. Chandler morava na cidade de São Paulo, com a esposa, Joan, e seus três filhos, Jeffrey, de 4 anos, Todd, de 3 anos, e Luanne, de 3 meses. Entretanto, segundo os "guerrilheiros", Chandler era um "agente da CIA" e "encontrava-se no Brasil com a missão de assessorar a ditadura militar na repressão".

No início de outubro, um "tribunal revolucionário", integrado por três dirigentes da VPR, Onofre Pinto, como presidente, e João Carlos Kfouri Quartim de Morais ("Manoel"; "Mané"; "Maneco") e Ladislas Dowbor ("Jamil"; "Nelson"; "Abelardo"), como membros, condenou o Capitão Chandler à morte.

Através de levantamentos realizados por Dulce de Souza Maia ("Judit"), apurou-se, sobre a futura vítima, seus horários habituais de entrada e saída de casa, costumes, roupas que costumava usar, aspectos de sua personalidade e dados sobre os familiares e sobre o local em que residia, numa casa da Rua Petrópolis, nº 375, no tranqüilo e bucólico bairro do Sumaré, em São Paulo.

Escolhido o "grupo de execução", integrado por Pedro Lobo de Oliveira ("Getúlio"; "Gegê"), Diógenes José Carvalho de Oliveira ("Luiz"; "Leandro"; "Leonardo"; "Pedro") e Marco Antônio Braz de Carvalho, nada mais é convincente, para demonstrar a frieza do assassinato, do que transcrever-se trechos do depoimento do próprio Pedro Lobo de Oliveira, um dos criminosos, publicado no livro "A Esquerda Armada no Brasil", de A. Caso:

"Como já relatei, o grupo executor ficou integrado por três companheiros: um deles levaria uma pistola-metralhadora INA, com três carregadores de trinta balas cada um; o outro, um revólver; e eu, que seria o motorista, uma granada e outro revólver. Além disso, no carro estaria também uma carabina M-2, a ser utilizada se fôssemos perseguidos pela força repressiva do regime. Consideramos desnecessária cobertura armada para aquela ação. Tratava-se de uma ação simples. Três combatentes revolucionários decididos são suficientes para realizar uma ação de justiçamento nessas condições. Considerando o nível em que se encontrava a repressão, naquela altura, entendemos que não era necessária a cobertura armada."

A data escolhida para o crime foi a de 08 de outubro, que assinalava o primeiro aniversário da morte de Guevara. Entretanto, nesse dia, Chandler não saiu de casa e os três terroristas decidiram "suspender a ação".

Quatro dias depois, em 12 de outubro de 1968, chegaram ao local às 7 horas. Às 0815h, Chandler dirigiu-se para a garagem e retirou o seu carro, um Impala placa 481284, em marcha a ré. Enquanto seu filho de 4 anos abria o portão, sua esposa aguardava na porta da casa, para dar-lhe o adeus. Não sabia que seria o último.

Os terroristas avançaram com o Volks, roubado dias antes, e bloquearam o caminho do carro de Chandler. No relato de Pedro Lobo, "nesse instante, um dos meus companheiros saltou do Volks, revólver na mão, e disparou contra Chandler". Era Diógenes José Carvalho de Oliveira, que descarregava, à queima roupa, os seis tiros de seu Taurus de calibre .38.

E prossegue Pedro Lobo, que dirigia o Volks:

"Quando o primeiro companheiro deixou de disparar, o outro aproximou-se com a metralhadora INA e desferiu uma rajada. Foram catorze tiros. A décima quinta bala não deflagrou e o mecanismo automático da metralhadora deixou de funcionar. Não havia necessidade de continuar disparando. Chandler já estava morto. Quando recebeu a rajada de metralhadora emitiu uma espécie de ronco, um estertor, e então demo-nos conta de que estava morto".

 
Cap. Chandler quando retirava seu veículo da garagem.

Cap. Chandler covardemente assassinado.

Cap. Chandler com o corpo perfurado por rajadas de metralhadora.
 
Justiçamento 3: O ASSASSINATO DE MÁRCIO LEITE TOLEDO DA ALNA 
A manhã de 23 de março de 1971 encontrou o jovem advogado de 26 anos, Sérgio Moura Barbosa, escrevendo uma carta, em seu humilde quarto de pensão no bairro de Indianópolis, na capital de São Paulo. Os bigodes bem aparados e as longas suíças contrastavam com o aspecto conturbado de seu rosto, que não conseguia esconder a crise pela qual estava passando.


Três frases foram colocadas em destaque na primeira folha da carta: "A Revolução não tem prazo e nem pressa"; "Não pedimos licença a ninguém para praticar atos revolucionários"; e "Não devemos ter medo de errar. É preferível errar fazendo do que nada fazer". Em torno de cada frase, todas de Carlos Marighela, o jovem tecia ilações próprias, tiradas de sua experiência revolucionária como ativo militante da Ação Libertadora Nacional (ALN).

Ao mesmo tempo, lembrava-se das profundas transformações que ocorreram em sua vida e em seu pensamento, desde 1967, quando era militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e estudante de Sociologia Política da Universidade Mackenzie, em São Paulo. O "Pardal", como era conhecido, pensava casar-se com Maria Inês e já estava iniciando a montagem de um apartamento na Rua da Consolação.

Naquela época, as concepções militaristas exportadas por Fidel Castro e Che Guevara empolgavam os jovens e Marighela surgia como o líder comunista que vociferava que os levaria à tomada do poder através da luta armada.

Impetuoso, desprendido e idealista, largou o PCB e integrou-se ao agrupamento de Marighela que, no início de 1968, daria origem à ALN. Naquela manhã, a carta servia como repositório de suas dúvidas:

"Faço esses comentários a propósito da situação em que nos encontramos: completa defensiva e absoluta falta de imaginação para sairmos dela. O desafio que se nos apresenta no atual momento é dos mais sérios,na medida em que está em jogo a própria confiança no método de luta que adotamos. O impasse em que nos encontramos ameaça comprometer o movimento revolucionário brasileiro, levando-o, no mínimo, à estagnação e, no máximo, à extinção."

Esse tom pessimista estava muito longe das esperanças que depositara nos métodos revolucionários cubanos. Lembrava-se de sua prisão, em fins de julho de 1968, quando fora denunciado por estar pretendendo realizar um curso de guerrilha em Cuba. Conseguindo esconder suas ligações com a ALN, em poucos dias foi liberado. Lembrava-se, também, da sua primeira tentativa para ir a Havana, passando por Roma, quando foi detido, em 16 de agosto de 1968, no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro. Conduzido à Polícia do Exército, foi liberado três dias depois. Finalmente, conseguindo o seu intento, permaneceu quase dois anos em Cuba, usando o codinome de "Carlos". Aprendeu a lidar com armamentos e explosivos, a executar sabotagens e a realizar assaltos. Em junho de 1970, voltou ao Brasil, retomando suas ligações com a ALN.

Em face de sua inteligência aguda e dos conhecimentos que trazia de Cuba, ascendeu rapidamente na hierarquia, passando a trabalhar junto à Coordenação Nacional. Foi quando, em 23 de outubro de 1970, um segundo golpe atingiu duramente a ALN, com a morte de seu então líder Joaquim Câmara Ferreira, o "Velho" ou "Toledo", quase um ano após a morte de Marighela. Lembrava-se que, durante cerca de 40 dias, ficara sem ligações com a organização. Premido pela insegurança, não compareceu a vários pontos, sendo destituído da Coordenação. Não estava concordando com a direção empreendida à ALN e escreveu, na carta, que havia entrado "em entendimento com outros companheiros igualmente em desacordo com a condução dada ao nosso movimento."

No início de fevereiro de 1971, foi chamado para uma discussão com a Coordenação Nacional e, na carta, assim descreveu a reunião: "Ao tomarem conhecimento de meu contato paralelo, os companheiros do Comando chamaram-me para uma discussão, a qual transcorreu num clima pouco amistoso, inclusive com o emprego, pelas duas partes, de palavras inconvenientes para uma discussão política. Confesso que fiquei surpreso com a reação dos companheiros por não denotarem qualquer senso de autocrítica e somente entenderem a minha conduta como um simples ato de indisciplina."

Não sabia, o jovem, que a ALN suspeitava que ele houvesse traído o "Velho".

Com o crescimento de suas indecisões, não aceitou, de pronto, a função que lhe havia sido oferecida, a de ser o coordenador da ALN na Guanabara. Ao aceitá-la, após um período de reflexão, a proposta já fora cancelada. Foi, então, integrado a um "Grupo de Fogo" da ALN em São Paulo, no qual, até aquela manhã, participara de diversos assaltos. Seu descontentamento, entretanto, era visível: "Fui integrado nesse grupo, esperando que, finalmente, pudesse trabalhar dentro de uma certa faixa de autonomia e aplicar meus conhecimentos e técnicas em prol do movimento. Aí permaneci por quase dois meses, e qual não foi a minha decepção ao verificar que também aí estava anulado... Tive a sensação de castração política."

Não sabia, o jovem, que a ALN estava considerando o seu trabalho, no "Grupo de Fogo", como desgastante e "ainda somado à vacilação diante do inimigo", acusado de ter fugido da polícia quando estavam trocando as placas de um carro roubado.

No final da carta, Sérgio, mantendo a ilusão revolucionária, teceu comentários acerca de sua saída da ALN: "Assim, já não há nenhuma possibilidade de continuar tolerando os erros e omissões políticas de uma direção que já teve a oportunidade de se corrigir e não o fez. Em sã consciência, jamais poderei ser acusado de arrivista, oportunista ou derrotista. Não vacilo e não tenho dúvidas quanto às minhas convicções. Continuarei trabalhando pela Revolução, pois ela é o meu único compromisso."

Ao pé da carta, assinava "Vicente" e não "Mário", codinome este que havia passado a usar depois de seu regresso de Cuba.

Terminada a redação, pegou o seu revólver calibre 38 e uma lata cheia de balas com um pavio à guisa de bomba caseira e saiu para "cobrir um ponto" com o militante da ALN José Milton Barbosa . Não sabia que seria traído. Não sabia, inclusive, que o descontentamento da ALN era tanto que ele já havia sido submetido -- e condenado -- por um pseudo "Tribunal Revolucionário".

No final da tarde, procedendo às costumeiras evasivas, circulava pelas ruas do Jardim Europa, aristocrático bairro paulistano. Na altura do número 405 da Rua Caçapava, aproximou-se um Volkswagen grená, com dois ocupantes, que dispararam mais de 10 tiros de revólver .38 e pistola 9 mm. Um Gálaxie, com 3 elementos, dava cobertura à ação. Apesar da reação do jovem, que chegou a descarregar sua arma, foi atingido por 8 disparos. Morto na calçada, seus olhos abertos pareciam traduzir a surpresa de ter reconhecido seus assassinos. Da ação fizeram parte seus companheiros da direção nacional Yuri Xavier Pereira , Ana Maria Nacinovic Correia e Carlos Eugênio Sarmento Coelho da Paz, este último o autor dos disparos fatais.

Ao lado do corpo, foram jogados panfletos, nos quais a ALN assumia a autoria do "justiçamento", do qual também participaram, na cobertura, Antonio Sérgio de Matos, Paulo de Tarso Celestino da Silva e José Milton Barbosa.

São sugestivos os seguintes trechos desse "Comunicado":

"A Ação Libertadora Nacional (ALN) executou, dia 23 de março de 1971, Márcio Leite Toledo. Esta execução teve o fim de resguardar a organização... Uma organização revolucionária, em guerra declarada, não pode permitir a quem tenha uma série de informações como as que possuía, vacilações desta espécie, muito menos uma defecção deste grau em suas fileiras... Tolerância e conciliação tiveram funestas conseqüências na revolução brasileira... Ao assumir responsabilidade na organização cada quadro deve analisar sua capacidade e seu preparo. Depois disto não se permitem recuos... A revolução não admitirá recuos!"

O jovem não era "advogado" e nem se chamava "Sérgio Moura Barbosa", "Carlos", "Vicente", "Mário" ou "Pardal". Seu nome verdadeiro era Márcio Leite Toledo.

Enterrado dias depois em Bauru, seu irmão mais velho, então Deputado Federal por São Paulo, declarou saber que ele havia sido morto pelos próprios companheiros comunistas.

F. DUMONT

Justiçamento 4: ASSASSINATO DE HENNING ALBERT BOILESENO - O industrial Henning Albert Boilesen começou a morrer em janeiro de 1971.

Nessa época, Antônio André Camargo Guerra ("Márcio", "Rafael", "Fernando", "Homero", "Alexandre"), do comando do Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT), "cobriu um ponto" em Cascadura, na então Guanabara, com Herbert Eustáquio de Carvalho, o "Daniel", da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), para tratar das próximas ações da "Frente", constituída por essas duas organizações e mais a Ação Libertadora Nacional (ALN), o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) e o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR). Na ocasião, Herbert, a mando de Carlos Lamarca, entregou-lhe um bilhete com três nomes: "Henning Boilessen", "Peri Igel" e "Sebastião Camargo (Camargo Correia)". Segundo Herbert, Lamarca pedia ao MRT que levantasse os dados dessas três pessoas a fim de futuros seqüestros ou justiçamentos.

Boilesen, um dinamarquês de 55 anos, havia sido, em sua juventude, lutador de box e jogador de futebol em Copenhague. Formado em Administração de Empresas, veio para São Paulo em 1942, como contador da Firestone, naturalizando-se brasileiro em 1959.

Ingressando na Ultragás, foi, pela sua grande capacidade de trabalho, galgando postos, sucessivamente, até tornar-se o presidente do Grupo Ultra, que englobava várias empresas ligadas à produção do gás liqüefeito do petróleo.

Preocpado com os aspectos sociais do trabalho, auxiliava diversas entidades e havia criado um Centro de Integração Empresa-Escola, para a formação de mão-de-obra especializada. Entrosado com o meio empresarial, possuía os títulos de "Cidadão Paulistano" e de "Homem de Relações Públicas em 1964", além de quase uma dezena de medalhas e condecorações, outorgadas por diversas entidades, entre as quais o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, a Sociedade Geográfica Brasileira e o Museu de História do Rio de Janeiro.

Casado, com 3 filhos e 4 netos, Boilesen disputava peladas de futebol nos fins de semana e era fanático torcedor do Palmeiras. Gostava de samba e ficava horas a ouvir Chico Buarque, a quem considerava um gênio. Apaixonado pelas artes plásticas, patrocinava exposições e privava da amizade de inúmeros artistas que expunham na vizinha cidade de Embu.

Mas, para a VPR, ele era um "espião da CIA" e patrocinador da Operação Bandeirante, a OBAN. No bilhete passado por Herbert para Antônio André, Boilesen estava em primeiro lugar e assinalado com um sinistro "X".

A partir da 2ª quinzena de janeiro de 1971, iniciaram-se os levantamentos do industrial, dos quais participaram Devanir José de Carvalho ("Henrique", "Justino", "Heitor"), Dimas Antônio Casemiro ("Rei", "Celso", "Jaime", "Serafim"), Gilberto Faria Lima ("Zorro", "Diego", "Carlos", "Giba", "Sílvio") e José Dan de Carvalho ("Alcides"), pelo MRT, Carlos Eugênio Sarmento Coelho da Paz ("Clemente", "Guilherme"), pela ALN, e Gregório Mendonça ("Fumaça", "Leônidas", "Marcos") e Laerte Dorneles Meliga ("Flávio", "Sebastião"), pela VPR.

Nos levantamentos procedidos, descobriu-se que Boilesen residia no Morumbi e que diariamente, às 0900 horas, antes de ir para o trabalho, passava para ver um de seus filhos (que era cego) do primeiro casamento, na Rua Estados Unidos, 1030. Nada descobriram, entretanto, sobre sua suposta ligação com a OBAN.

A prisão de Laerte e Gregório, respectivamente, em 02 e 04 de fevereiro, fez com que suspendessem a ação, temporariamente, pois ambos haviam participado dos levantamentos. Passados alguns dias, observando que o industrial não mudara seus hábitos e continuava a não possuir segurança pessoal, concluíram que nada havia sido delatado pelos companheiros.

Numa reunião do comando do MRT, realizada em 17 de fevereiro, Boilesen foi julgado e condenado à morte. Na pauta resumida dessa reunião, apreendida dois meses depois, aparece um lacônico "Justiçamento-CIA". Uma semana depois, em 23 de fevereiro, na pauta de uma nova reunião do comando, aparecia, com a própria letra do Devanir: "Tarefa prioritária: Sobre a pena de morte - apresentar proposta à frente". O MRT, para executar a ação, precisava propô-la à "Frente". Boilesen ganhou mais alguns dias de vida.

A morte de Devanir José de Carvalho, o famigerado "Henrique", líder do MRT, baleado ao resistir à prisão em 05 de abril, em vez de suspender, precipitou a ação. Dimas, o "Rei", e Giberto, o "Zorro", entraram em contato com Carlos Eugênio, o "Clemente", e José Milton Barbosa ("Castro"), da ALN, e pediram auxílio para a execução, como vingança pela morte do "Henrique".

Entre os dias 09 e 13 de abril, o "Comando Revolucionário Devanir José de Carvalho", criado especificamente para a ação, realizou novos levantamentos sobre Boilesen. Dimas escreveu o panfleto que seria jogado sobre a futura vítima, procurando "justificar" o assassinato.

Na manhã de 14 de abril, o Comando Revolucionário montou o seu dispositivo. No carro da ação, um Volks, três militantes da ALN: Antônio Sérgio de Matos ("Uns e Outros"), como motorista, Yuri Xavier Pereira ("Joaozão"), com Fuzil Mauser 7 mm, e José Milton Barbosa, com metralhadora INA. No carro de cobertura, outro Volks, três militantes do MRT: Dimas Antônio Casemiro, como motorista, Joaquim Alencar de Seixas ("Roque", "Felipe", "Velho"), com Winchester 44, e Gilberto Faria Lima, com metralhadora INA. Haviam decidido que a ação seria executada em frente da casa dos filhos de Boilesen, na Rua Estados Unidos, a fim de causar maior impacto na opinião pública. Estacionaram os dois carros na Alameda Casa Branca e Yuri e José Milton montaram guarda na esquina para esperar a sua saída. Subiriam nos carros e fechariam o do industrial antes que ele desse a partida.

Entretanto, nesse dia, Boilesen viajou a negócios para a Guanabara. Ganhou mais 24 horas de vida.

No dia seguinte, 15 de abril de 1971, novamente o Comando Revolucionário tomou posição. Dessa vez, pontual, Boilesen saiu da casa de seus filhos, às 0910 horas. O planejamento, no entanto, não fora bem feito. Ao entrarem na Estados Unidos, os terroristas observaram, surpresos, que o Ford Gálaxie do industrial já virava à direita, tomando a Rua Peixoto Gomide. Após alguns segundos de hesitação, decidiram agir assim mesmo e saíram em perseguição ao carro. Para evitar uma feira livre, Boilesen entrou na Rua Professor Azevedo Amaral e pegou a Barão de Capanema. Na esquina da Alameda Casa Branca, parou para entrar à esquerda. Nesse momento, os dois carros emparelharam com o dele. Pela esquerda, Yuri, colocando o fuzil para fora da janela, disparou um tiro que raspou a cabeça de Boilesen. Este saiu do Gálaxie e tentou correr em direção contrária aos carros. Foi inútil. José Milton descarregou a metralhadora em suas costas e Yuri desfechou-lhe mais três tiros de fuzil. Cambaleando, Boilesen arrastou-se por mais alguns metros, indo cair na sarjeta, junto de um outro Volkswagen. Aproximando-se, Yuri disparou mais um tiro, que arrancou-lhe a maior parte da face esquerda. Joaquim e Gilberto jogaram os panfletos por cima do cadáver. Os terrorista, subindo em seus carros, arrancaram em alta velocidade, fugindo pela Alameda Casa Branca em direção à Avenida Paulista.

Mais tarde, num relatório escrito por Yuri e apreendido pela polícia, pode-se ler: "Durante a fuga trocávamos olhares de contentamento e satisfação.. Mais uma vitória da Revolução Brasileira".

O assassinato durara menos de dois minutos. Os disparos haviam chamado a atenção de dezenas de populares que estavam na feira livre. Vários carros e casas foram atingidos por tiros perdidos. Caídas, uma senhora, atingida no ombro, e uma vendedora de maçãs, ferida na perna, aumentavam o pânico das pessoas, que correram em direção à Peixoto Gomide.

Sobre o corpo de Boilesen, mutilado com 19 tiros, os panfletos da ALN e do MRT, dirigidos "Ao Povo Brasileiro", traziam a ameaça:

"Como ele, existem muitos outros e sabemos quem são. Todos terão o mesmo fim, não importa quanto tempo demore; o que importa é que todos eles sentirão o peso da JUSTIÇA REVOLUCIONÁRIA. Olho por olho, dente por dente".

Os "senhores da vida e da morte" superestimaram o próprio tempo.

Corpo de Boilensen

Justiçamento 5: ASSASSINATO DO MARINHEIRO INGLÊS DAVID A. CUTHBERG

Em 5 de fevereiro de 1972, chegava ao porto do Rio de Janeiro uma força-tarefa da Real Marinha Inglesa, em comemoração ao sesquicentenáio da Independência do Brasil. Os marinheiros, como em todo porto, estavam ávidos para conhecer a noite do Rio, um sábado bafejado pelo calor do verão e pelos primeiros sons de samba, que antecediam o carnaval carioca.


Liberado da faina do navio H.M.S.Triumph, o marinheiro inglês David A. Cuthberg, de 19 anos, acompanhado de seu colega Paul Stoud, tomou, na Praça Mauá, o táxi dirigido por Antonio Melo, que os levaria para conhecer a mundialmente famosa praia de Copacabana.

Eles não sabiam que, desde a chegada na praça, estavam sendo observados por oito terroristas, dissimulados dentro de dois carros.

Na esquina da Avenida Rio Branco com Visconde de Inhaúma, à porta do Hotel São Francisco, um dos veículos emparelhou com o táxi e David foi atingido por uma rajada de metralhadora, disparada por Flávio Augusto Neves Leão de Salles. Imediatamente, Lígia Maria Salgado da Nóbrega jogou para dentro do táxi panfletos que falavam em vingança contra os ingleses por terem massacrado os irlandeses do norte. O "Comando da Frente" acabou com o sonho de David em conhecer Copacabana, "justificando plenamente" seu ato pela solidariedade à luta do IRA contra os ingleses.

A ação criminosa, tachada como "justiçamento", foi praticada pelos seguintes oito terroristas, integrantes de uma frente formada por três organizações comunistas: pela ALN, Flávio Augusto Neves Leão de Salles ("Rogério", "Bibico", "Brutus", "Ali", "José", "Zeca"), Antonio Carlos Nogueira Cabral ("Chico", "Alfredo"), Aurora Maria do Nascimento Furtado ("Marcia", "Rita", "Patricia") e Adair Gonçalves Reis ("Elber", "Leonidas", "Robson", "Sorriso", "Van"); pela VAR-P, Lígia Maria Salgado da Nóbrega ("Ana", "Celia", "Cecilia", "Ceguinha", "Isa"), Hélio da Silva ("Anastacio", "Nadinho") e Carlos Alberto Salles ("Soldado"); pelo PCBR, Getúlio de Oliveira Cabral ("Artur", "Feio", "Gogó", "Gustavo", "Soares", "Tarso").

O jornal "O GLOBO" comentou o fato, com o título de "REPULSA":

"Tinha dezenove anos o marinheiro inglês David A. Cuthberg que, na madrugada de sábado, tomou um táxi com um companheiro para conhecer o Rio, nos seus aspectos mais alegres. Ele aqui chegara como amigo, a bordo da flotilha que nos visita para comemorar os 150 anos da Independência do Brasil. Uma rajada de metralhadora tirou-lhe a vida, no táxi em que se encontrava. Não teve tempo para perceber o que ocorria e, se percebesse, com certeza não poderia compreender. Um terrorista, de dentro de outro carro, apontara friamente a metralhadora antes de desenhar nas suas costas o fatal risco de balas, para logo em seguida completar a infâmia, despejando sobre o corpo ainda palpitante panfletos em que se mencionava a palavra liberdade. Com esse crime repulsivo, o terror quis apenas alcançar repercussão fora de nossas fronteiras para suas atividades, procurando dar-lhe significação de atentado político contra o regime brasileiro. A transação desejada nos oferece a dimensão moral dos terroristas: a morte de um jovem inocente em troca da publicação da notícia num jornal inglês. O terrorismo cumpre, no Brasil, com crimes como esse, o destino inevitável dos movimentos a que faltam motivação real e consentimento de qualquer parcela da opinião pública: o de não ultrapassar os limites do simples banditismo, com que se exprime o alto grau de degeneração dessas reduzidas maltas de assassinos gratuitos."

Pode-se observar que, naquela época, os comunistas eram chamados de "terroristas", suas organizações, de "reduzidas maltas de assassinos" e suas ações, de "crimes repulsivos".

Hoje, passados muitos anos, a mesma imprensa os glorifica como heróis que lutavam contra a ditadura militar. E os nossos atuais governos, além de abrigarem os ainda vivos, indeniza com muito dinheiro os familiares dos que morreram.

F. Dumont


O ASSASSINATO DE MANOEL HENRIQUE DE OLIVEIRA.Os terroristas da AÇÃO LIBERTADORA NACIONAL (ALN), atribuindo a morte de Yuri Xavier Pereira e seus companheiros à delação de um dos proprietários do Restaurante Varela, no bairro da Mooca, onde o terrorista e seu bando foram localizados, decidiram pelo, seu assassinato, com o pomposo titulo de "justiçamento". O comando "Aurora Maria do Nascimento Furtado", constituído por Arnaldo Cardoso Rocha, Francisco Emanuel Penteado, Francisco Seiko Okama e Ronaldo Mouth Queiroz foi encarregado da missão e assassinou, no dia 21 de fevereiro de 1973, o comerciante.


Às 0700 h dessa manhã, quando Manoel descia de seu Volkswagen, acompanhado de um sobrinho menor, para abrir o restaurante do qual era um dos quatro sócios proprietários, foi metralhado, sem que pudesse esboçar um gesto de defesa, não tendo seu sobrinho sido atingido pelas rajadas de metralhadora por mero acaso. Manoel, 39 anos, de nacionalidade portuguesa, viera para o Brasil há pouco mais de um ano, "para tentar a vida na terra da promissão": Com sua morte, antes que pudesse melhorar de vida, deixou sua mulher, com 2 crianças pequenas, totalmente desamparada, numa terra estranha. O conhecimento da ação não ficou restrito aos assassinos; o corpo de Manoel foi coberto por panfletos da organização impressos no Centro de Orientaç5o Estudantil da USP, por interveniência do militante da ALN Paulo Frateschi.



Justiçamento 6: O ASSASSINATO DO DR. OCTÁVIO GONÇALVES MOREIRA JÚNIOR (OTAVINHO)Durante o ano de 1972, as organizações terroristas sofreram pesadas perdas em combates travados com os órgãos de segurança. Para elas, era necessária uma ação de intimidação.


Em São Paulo, documentos apreendidos em "aparelhos" terroristas mostravam levantamentos com nomes de pessoas do DOI/II Exército, suas características pessoais, tipo de carros usados, locais freqüentados, endereços, etc. Medidas foram tomadas para proteger o pessoal e todos foram alertados para o perigo de um atentado.

Esses levantamentos haviam sido enviados para o Chile, onde um grupo formado por quatro organizações terroristas brasileiras, intitulando-se Tribunal Popular Revolucionário, decidiu "justiçar" um membro do DOI/II Exército. Compunham este "Tribunal" as seguintes organizações: Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), Ação Libertadora Nacional (ALN), Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) e Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-P).

O escolhido foi o Dr. Octávio Gonçalves Moreira Júnior, Delegado de Polícia lotado no DOPS/SP. Excelente profissional, ele se apresentou como voluntário para trabalhar na "Operação Bandeirante" (OBAN), que depois, reformulada, passou a se chamar Destacamento de Operações de Informações (DOI)). Apesar de avisado da intenção dos terroristas, não imaginava que seria um alvo fácil.

"Otavinho", como era conhecido, viajava seguidamente para o Rio de Janeiro, onde residia sua noiva Ângela. Era um apaixonado pelo sol, pelo mar e pela Escola de Samba da Portela, da qual era membro honorário. No Rio de Janeiro, sempre desarmado e despreocupado, não sabia que seus algozes o estavam seguindo e que já conheciam os seus hábitos em suas folgas de trabalho.

O levantamento de sua vida, no Rio, foi feito pela terrorista Bete Chachamovitz, da ALN, que repassava todos esses dados para um comando terrorista denominado "Getúlio de Oliveira Cabral". No início de fevereiro de 1973, Bete concluiu a sua missão.

No dia 23/02/73, sexta-feira, à noite, o Dr. Octávio viajou de São Paulo para o Rio. O comando terrorista, graças ao trabalho de Bete Chachamovitz, já sabia, pela rotina de "Otavinho", onde ele se hospedava. Sabia, também, que invariavelmente, ele ia à praia de Copacabana.

O Dr. Octávio, no sábado, dia 24, foi à praia, e à noite, ao ensaio da Portela. No dia seguinte, 25/02/73, pela manhã, voltou à mesma praia, onde jogou voleibol, e depois foi almoçar no Leme com o seu amigo Carlos Alberto Martins.

Quando voltava do almoço, confiante e despreocupado, não notou que um automóvel Opala escuro estava estacionado na esquina da Avenida Atlântica com a Rua República do Peru, desde às 1500h. Dentro dele, aguardando, estavam os encarregados da execução, enquanto os outros, dando cobertura, ficaram posicionados em locais estratégicos. Todos, integrantes do comando terrorista que estava assim constituído:

- Bete Chachamovitz, da ALN;
- Tomás Antônio da Silva Meirelles Netto ("Luiz"), da ALN;
- Merival Araújo ("Zé"), da ALN;
- Flávio Augusto Neves Leão Sales ("Rogério", "Bibico"), da ALN;
- José Carlos da Costa ("Baiano", "Bira", "Maneco"), da VAR-P;
- James Allen Luz ("Ciro", "Edson", "Roberto", "Tarso"), da VAR-P;
- Ramires Maranhão do Vale ("Adalberto", "Alberto", "Cristo", "Mago", "Magro", "Ziraldo", "Zizi"), do PCBR;
- Ranúsia Alves Rodrigues ("Florinda", "Maga", "Magra", "Maria", "Mirtes", "Nuce"), do PCBR.

"Otavinho" caminhava com o amigo em direção ao apartamento onde se hospedava. Como sempre, estava desarmado. Parou num orelhão para telefonar para sua noiva. Neste momento, Bete Chachamovitz fez o reconhecimento visual e o apontou para os terroristas. Do carro, saltaram os três assassinos. Um deles trazia uma esteira de praia, enrolada debaixo do braço. Dentro da esteira, uma carabina calibre 12 mm.

Foi dado o primeiro tiro, nas costas, derrubando-o e atirando-o a alguns metros de distância. Um segundo tiro, destinado ao coração, atingiu o crucifixo de ouro que ele trazia no pescoço, ricocheteou e perfurou o seu pulso direito. O outro homem aproximou-se e desfelhou-lhe mais dois tiros no rosto. Os últimos tiros foram disparados de uma pistola automática calibre 9 mm.

Otavinho morreu instantaneamente. Na sua carteira de documentos, um cartão: "Sou muito católico. Em caso de acidente, chame imediatamente um padre, mesmo que eu já esteja morto". Carlos Alberto, o amigo que o acompanhava, foi atingido por dois tiros, mas sobreviveu.

Os assassinos, depois de espalharem panfletos sobre o corpo, correram até o Opala, que partiu em disparada.

Estava consumado mais um assassinato que a esquerda chamava de "justiçamento". O "Comando Revolucionário Popular Getúlio de Oliveira Cabral" seguiu à risca os ensinamentos do Manual de Carlos Marighela, fundador da ALN e ideólogo do terror, onde lista os sete pecados capitais do guerrilheiro e afirma:

"Guerrilheiros não matam por raiva, nem por impulso, pressa ou improvisação. Matam com naturalidade.Não interessa o cadáver, mas seu impacto sobre o público."

Não poderia haver melhor impacto sobre os órgãos de segurança do que matar, pelas costas, um jovem delegado idealista que, pela sua educação, amabilidade e carisma, era muito estimado. Hoje, 27 anos depois, o Dr. Octávio Gonçalves Moreira Júnior, como outras vítimas do terrorismo, está completamente esquecido, enquanto que Marighela foi homenageado pela Câmara dos Deputados, no dia 13/12/1999, e muitos outros que participaram desses grupos terroristas são apresentados como mártires. Ruas, praças e avenidas recebem seus nomes. Suas famílias são indenizadas pelo governo com polpudas quantias em dinheiro.

Felizmente, a esquerda revolucionária não conseguiu implantar uma ditadura comunista em nosso país. A sua derrota, imposta pelos órgãos de segurança da época, com o sacrifício de heróis como o Dr. Octávio Gonçalves Moreira Júnior, permitiu-nos desfrutar da plena democracia em que hoje vivemos.

O corpo do Dr Octávio, logo após o assassinato:



Justiçamento 7: O ASSASSINATO DO PROFESSOR FRANCISCO JACQUES MOREIRA DE ALVARENGA



Em 1973, as organizações comunistas que participavam da luta armada estavam iniciando o caminho do fim. A ação enérgica dos órgãos de segurança intimidava e restringia os movimentos dos seus militantes. Muitos foram presos. Muitos morreram no momento da prisão. A maioria, entretanto, fugiu para o exterior.

Tudo isso e mais a frustração pela luta armada não haver mobilizado a população como pretendiam tornaram moribundas as poucas organizações que ainda atuavam e seus dirigentes debatiam-se entre a ânsia de fugir e a ainda, mas pouca, vontade de atuar. De qualquer modo, viviam escondidos nos aparelhos e realizavam poucas ações armadas, restritas àquelas destinadas a colher fundos para sustentar seus militantes.

Uma dessas organizações era a Ação Libertadora Nacional (ALN), oriunda das idéias de Marighella e que, pregando "a ação pela ação", tornara-se uma das mais violentas.

A outra era a Resistência Armada Nacionalista (RAN), uma organização que, com o nome inicial de Grupo Independência ou Morte (GIM), surgira dos escombros do antigo Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), de Brizola. Uma estranha organização carioca, que ousava usar termos do tipo "nacionalista", que fugia aos clássicos padrões do marxismo-leninismo e cujas siglas, sucessivamente, foram as curiosas "GIM" e "RAN".

A ALN era a "grande" organização, a qual, entretanto, já havia perdido seus dois maiores líderes, Marighella e Toledo. A RAN era uma diminuta organização, que ainda tinha o seu líder, o pequenino e serelepe Amadeu de Almeida Rocha ("Augusto", "Valter"), que se orgulhava de ter sido preso na Guerrilha de Caparó e que gostava de ser chamado de "Comandante Amadeu".

O que as unia, entretanto, era a vontade de fazer a revolução e a opção pela luta armada. Enquanto que, em 1973, a ALN já se debatia pelas contínuas "quedas" de seus líderes, a RAN, intacta e incólume, decidia iniciar, naquele começo de ano, suas ações armadas.

Em nossa história, havia dois amigos:

- um era Merival de Araújo ("Zé"), militante da ALN, participante de diversas ações armadas, dentre as quais o assassinato do delegado Octávio Gonçalves Moreira Júnior ("Otavinho"), em Copacabana, em 25 de fevereiro de 1973;

- o outro era Francisco Jacques Moreira de Alvarenga ("Bento"), militante da RAN e mais conhecido como professor Jacques.

A amizade entre ambos havia começado quando Jacques era o professor de Merival. Naquela época, eles constituiam-se na ligação entre a ALN e a RAN.

A nossa história começa na manhã de 22 de fevereiro de 1973, quando a RAN, sem armamento suficiente para desencadear as ações violentas, decidiu roubar as armas da 16ª Inspetoria da então existente Guarda Noturna, localizada na Rua Uruguai, 380, Loja 50, na Tijuca, Rio de Janeiro.

Quatro militantes lotaram um carro para o assalto: José Sergio Vaz ("Luiz", "Marcelo") - comandante da ação - Hermes Machado Neto ("Antonio", "Julio"), Jefferson Santos do Nascimento ("Santos") e José Flavio Ramalho Ortigão ("João") que, por ser o motorista do "Comandante Amadeu" - e da ação - passou a ser conhecido como "Fittipaldi".

A indigência da RAN criava simbolismos: a única pistola .45 existente ficava com o comandante da ação. Durante a incursão, Jefferson disparou acidentalmente a sua arma, provocando uma fuga precipitada. Foram roubados apenas dezenove revólveres.

Durante a retirada, uma cena cômica: os assaltantes, de carro, foram perseguidos algum tempo por um guarda-noturno de bicicleta. Naquela ocasião, Jefferson disparou novamente, tentando afugentar o perseguidor. Após a ação, Hermes Machado e Jefferson saltaram do carro no ponto final do ônibus 410, na Tijuca, enquanto que Ramalho Ortigão e José Sérgio Vaz seguiram até a parte dos fundos do Hospital Pedro Ernesto, onde entregaram uma pasta com as armas ao "Comandante Amadeu". Em seguida o carro foi abandonado no Maracanã.

O assalto à Guarda Noturna foi motivo de euforia na organização. Como crianças travessas, os "revolucionários" Amadeu Rocha e Júlio Ferreira Rosas Filho ("Teixeira"), um professor da Faculdade Estácio de Sá, ligavam para todos os conhecidos mandando que comprassem os jornais e identificassem o assalto como sendo de autoria da RAN. Amadeu chegou a preparar correspondência para os jornais, onde a organização assumia a responsabilidade da ação.

Cinco dias depois, os mesmos quatro militantes, já devidamente armados e reforçados por Sandra Lazzarini ("Tania", "Valeria"), médica residente do Hospital Pedro Ernesto, assaltaram a residência de um médico na Rua Senador Vergueiro, no Flamengo, de onde levaram dinheiro e ações ao portador.

Foi a última ação armada da RAN. Seus militantes, cometendo diversos erros e não afeitos à clandestinidade, foram sendo presos um a um, até que, no dia 5 de abril, "caiu", na agência Centro da Caixa Econômica Federal, o "Comandante Amadeu". Amadeu, além do grande constrangimento causado à sua esposa, Alice, que, na prisão, ficou conhecendo Vera Lúcia, sua "noiva", foi uma grande decepção para todos aqueles que o tinham como um líder. Da arrogância e da autoconfiança de "Valter" ou de "Augusto", discípulo aplicado da escola de Leonel Brizola, o tutor de Caparaó, nada restou. Desprovido de coragem física e moral, Amadeu Rocha acovardou-se de forma tão humilhante, que se tornou fator de "desbundamento" de vários militantes da RAN que pretendiam manter o "papel digno do revolucionário na prisão".

O que restava da RAN, até o dia 5 de abril de 1973, foi destruído pela delação de Amadeu de Almeida Rocha. Mais tarde, já cumprindo pena, o "grande líder" da RAN denunciaria as "torturas" que teria sofrido, procurando justificar a tibieza de seu comportamento na prisão.

Mas ainda menos sorte teve o professor Jacques. Antes de sua prisão, no início de maio, recebera de Julio Ferreira Rosas Filho um pacote, contendo algumas armas do lote roubado da Guarda Noturna, com a orientação de desfazer-se dele. O professor Jacques passou as armas para seu amigo da ALN, Merival Araújo.

Durante os seus depoimentos na polícia, Jacques "abriu" um contato que teria com Merival, que, de forma previsível, em se tratando de terrorista da ALN, foi morto ao reagir à prisão.

Isso foi muito duro para a ALN. Além de estar acuada e de ter perdido seus principais líderes, sofria uma nova grande perda, agora por culpa de um "professorzinho" de uma "organizaçãozinha" que tinha nome de um "bicho do brejo".

A liberação do professor, um mês depois de ter sido preso, açulou a ALN, que, naquele ano, já havia "justiçado" duas pessoas. Montado um tribunal revolucionário, o Professor Jacques foi condenado à morte.

A militante Maria do Amparo Almeida Araújo, irmã do também militante da ALN Luiz Almeida Araújo, participou dos levantamentos dos hábitos do professor.

Em 28 Jun 73, às 1115h, o companheiro de Maria do Amparo, Thomaz Antonio da Silva Meirelles Netto ("Luiz") - um dos mais violentos militantes da ALN e que também participara do assassinato do delegado Otavinho - chefiando mais dois militantes da ALN, nunca identificados, rendeu o porteiro do Colégio Veiga de Almeida da Rua São Francisco Xavier, na Tijuca. Invadiram a escola e foram encontrar o professor Jacques sentado numa sala de aula, redigindo uma prova para os vestibulandos do curso MCB. Quatro tiros de pistola .45 mataram o professor, menos de três semanas depois de ter sido solto. Um cadáver, muito sangue no chão e uma das paredes pichadas com a sigla "ALN", foi o que encontraram os policiais ao chegarem no local.

Para os terroristas, o "tribunal revolucionário" detinha o poder da vida e da morte e esse assassinato era um "justiçamento". Na realidade, foi mais um crime dos comunistas brasileiros.

OUTROS JUSTIÇAMENTOS: MATANDO OS PRÓPRIOS COMPANHEIROS

Quando os esquerdistas mataram seus próprios companheiros

Reinaldo Azevedo

A lista das 120 vítimas das esquerdas pode ser ampliada a depender do critério que se use. E o total conhecido pode passar de 130. E, nesse caso, são os próprios esquerdistas que surgem como vítimas. Os tribunais revolucionários dos “companheiros” decretaram a pena de morte de alguns de seus pares.

Sabem o que impressiona? Nesse caso, os “reparadores” não cobram justiça. Tampouco pretendem levar os que ainda estão vivos e respondem por aquelas mortes para o banco dos réus. A canalhada se protege de tal modo que acha crime de lesa humanidade que um militar mate um dos seus, mas considera que esquerdista matando esquerdista, em nome da causa, é parte legítima do jogo.

Destaco uma vítima da ALN morta por seus pares. É a organização a que pertenceu Paulo Vannuchi. Acompanhem.

O militante Márcio Leite Toledo manifestou descontentamento com os rumos da ALN e fez críticas à direção do grupo terrorista. Foi assassinado com oito tiros. Em comunicado, a organização admitiu: “A Ação Libertadora Nacional (ALN) executou, dia 23 de março de 1971, Márcio Leite Toledo. Esta execução teve o fim de resguardar a organização… Uma organização revolucionária, em guerra declarada, não pode permitir a quem tenha uma série de informações como as que possuía, vacilações desta espécie, muito menos uma defecção deste grau em suas fileiras… Tolerância e conciliação tiveram funestas conseqüências na revolução brasileira… Ao assumir responsabilidade na organização cada quadro deve analisar sua capacidade e seu preparo. Depois disto não se permitem recuos… A revolução não admitirá recuos!”.

Seguem os outros “justiçados” - isto é, terroristas mortos por seus próprios “companheiros”, conforme está sintetizado no site “Quinto Poder”:

1) Antonio Nogueira da Silva Filho, da VAR-Palmares, condenado ao “justiçamento” em 1969 (a sentença não foi efetivada por ter o “condenado” fugido para o exterior);

2) Geraldo Ferreira Damasceno, militante da Dissidência da VAR-Palmares (DVD), “justiçado”em 29 de maio de 1970, no Rio de Janeiro;

3) Ari Rocha Miranda, militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), “justiçado” em 11 de junho de 1970, por seu companheiro Eduardo Leite, codinome “Bacuri”, durante uma “ação”, em São Paulo;

4) Antonio Lourenço, militante da Ação Popular (AP), “justiçado” em fevereiro de 1971, no Maranhão;

5) Márcio Leite Toledo, da Ação Libertadora Nacional (ALN), “justiçado” em 23 de março de 1971 (ver primeiro parágrafo e JUSTIÇAMENTO 3);

6) Amaro Luiz de Carvalho, codinome “Capivara”, militante do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário(PCBR) e, posteriormente, do Partido Comunista Revolucionário (PCR), “justiçado” em 22 de agosto de 1971, em Recife, dentro do presídio onde cumpria pena;

7) Carlos Alberto Maciel Cardoso, da Ação Libertadora Nacional (ALN), “justiçado” em 13 de novembro de 1971, no Rio de Janeiro;

8) Francisco Jacques Moreira de Alvarenga, da Resistência Armada Nacionalista (RAN), “justiçado” em 28 de junho de 1973, dentro da Escola onde era professor, por um comando da (ALN).Maria do Amparo Almeida Araujo, então militante da Organização e, bem mais tarde, presidente do “Grupo Tortura Nunca Mais”, em Pernambuco, participou dos levantamentos que permitiram a realização do referido “justiçamento”. Hoje, em depoimento no livro “Mulheres que Foram a Luta”, do jornalista Luis Maklouf de Carvalho-1998, ela declara não saber quem realizou a ação, embora seja evidente que, para que o “justiçamento” pudesse ter sido realizado, ela devesse ter passado este levantamento para alguém;

9) Salatiel Teixeira Rolins, do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), “justiçado” em 22 de julho de 1973 por militantes da Organização. Segundo Jacob Gorender, que em 1967 foi um dos fundadores do PCBR, em seu livro “Combate nas Trevas”, os assassinos não poderiam intitular-se “militantes do PCBR”, pois nessa época o “o PCBR não mais existia”.

No Araguaia, o PC do B justiçou Osmar, Pedro Mineiro e João Mateiro (estão na lista que já publiquei) e também o guerrilheiro(10) Rosalino Cruz Souza. Um outro de nome (ou codinome) (11) Paulo também teria sido assassinado, mas não há provas.

JUSTIÇAMENTOS DO PCB: NO ESTADO NOVOA LGUNS CRIMES DO PCB

Contam-se aos milhões os casos mundialmente conhecidos da violência comunista contra a pessoa humana, escudada num estranho valor moral que privilegia a revolução proletária em relação ao indivíduo, os fins justificando os meios.

Afirma Merleau-Ponty:

"A astúcia, a mentira, o sangue derramado, a ditadura são justificados se tornam possível o poder do proletariado e dentro desta medida somente." ("Humanismo e Terror", Ed. Tempo Brasileiro, RJ, 1968, página 13).

A violência, segundo a esquerda radical, seria válida se cometida em nome da classe operária e de seu representante, o Partido Comunista.

Lenin, em seu "testamento", havia indicado seis homens que poderiam substituí-lo na condução do Estado Soviético: Stalin, Zinoviev, Kamenev, Rykov, Bukharin e Trotsky.

Stalin, elegendo-se Secretário-Geral do PCUS, nunca conseguiu eliminar a oposição que lhe faziam os grupos internos dirigidos pelos outros cinco.

Na década de 30, a URSS vivia sob o clima da ameaça de uma guerra mundial e da questão sobre se seria possível enfrentá-la com a existência de uma oposição interna a Stalin, na cúpula do PCUS.

Os denominados "processos de Moscou" foram as respostas dessa questão e os opositores, sucessivamente, eliminados. Zinoviev e Kamenev foram fuzilados em 1936, Rykov em 1937, Bukharin em 1938 e Trotsky, que já estava banido da URSS desde 1929, foi assassinado em 1940, no México.

E isto para citar, apenas, alguns dirigentes.

Torna-se difícil, entretanto, imputar a Stalin a única culpa pelos crimes, como desejava Trotsky. Em um regime que dá a uma classe um poder total e ditatorial, qualquer homem poderia utilizá-lo sobre as demais parcelas da sociedade.

Alguns anos mais tarde, Tito, chefe do governo iugoslavo, afirmaria que os erros e os crimes cometidos resultavam mais do sistema soviético do que das falhas morais do ditador, cuja ascenção tal sistema proporcionou.

No Brasil, fanatizados pela mesma ideologia e animados pelos mesmos propósitos indecifráveis que os conduziram à Intentona de 1935, os comunistas deram seguidas demonstrações de inaudita violência, ao perpetrarem crimes, com requintes de perversidade, para eliminar, não só seus "inimigos", as forças policiais, mas seus próprios companheiros.

O "Tribunal Vermelho", criado para julgar, sumariamente, todos aqueles que lhes inspiravam suspeitas e receios, arvorava-se em juiz e executor, fornecendo, ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), um espectro trágico e patético.

Pelos casos conhecidos, pode-se inferir, também, que dezenas de outros crimes foram cometidos pelos comunistas, sem que houvessem vindo a público, escondidos pela "eficiência do trabalho executado".

Os casos a seguir relatados mostram, de um modo pálido, mas irretorquível, essa violência levada aos limites do absurdo.

As famílias das vítimas não tiveram, como ainda não os têm, o reconhecimento e o amparo da sociedade.

Aos assassinados, cabe a afirmação de Merleau-Ponty:

"Admitir-se-á talvez que eles eram indivíduos e sabiam o que é a liberdade. Não espantará se, tendo que falar do comunismo, nós tentamos vislumbrar, através nuvem e noite, estes rostos que se apagaram da terra." (Idem, página 32).

- BERNARDINO PINTO DE ALMEIDA

Em 1935, ainda antes da Intentona, Honório de Freitas Guimarães ("Milionário"), membro do CC/PCB, denunciou Bernardino Pinto de Almeida, vulgo "Dino Padeiro", de traição.

O "Tribunal Vermelho", cioso de suas atribuições, julgou-o culpado e perigoso para a ação armada que se avizinhava.

O próprio Secretário-Geral do Partido, Antonio Maciel Bonfim, o "Miranda", decidiu executá-lo, com o auxílio de seu cunhado, Luiz Cupelo Colônio.

"Dino Padeiro", deslumbrado com a possibilidade de encontrar-se com o número um do Partido, foi atraído para um local ermo, próximo à então estação de Triagem da Central do Brasil, no Rio de Janeiro.

Fora das vistas, "Miranda" desfechou-lhe uma coronhada e, em seguida, dois tiros de revólver. Tendo a arma enguiçado, tomou a de Cupelo e desfechou-lhe mais dois tiros, para ter a certeza da morte.

Entretanto, por incrível que pareça, "Dino" sobreviveu e, socorrido por funcionários da ferrovia, pôde contar sobre a tentativa de crime.

Ironicamente, o destino deu voltas.

Mais tarde, Cupelo sentiria, em sua própria família, o peso da violência.

- AFONSO JOSÉ DOS SANTOS

Em 2 de dezembro de 1935, com os militantes do PCB entrando na clandestinidade pela derrota da Intentona, o "Tribunal Vermelho" julgou e condenou à morte Afonso José dos Santos.

A vítima foi delatada por José Emídio dos Santos, membro do Comitê Estadual do PCB no Rio de Janeiro, que recebeu o encargo da execução.

Três dias depois do "julgamento", José Emídio cometia o assassinato, na garagem da Prefeitura de Niterói.

Impronunciado por falta de provas, só em 1941 o crime foi esclarecido.

- MARIA SILVEIRA

Elisiário Alves Barbosa, militante do PCB, quando estava na clandestinidade em São Carlos, cidade do interior paulista, apaixonou-se pela também militante Maria Silveira, conhecida como "Neli".

Indo para o Rio de janeiro, o próprio Elisiário, após algum tempo de militância, acusou "Neli" de não mais merecer a confiança do Partido.

O "Tribunal Vermelho" condenou-a à morte.

Planejado o crime, os militantes Ricarte Sarrun, Antonio Vitor da Cruz e Antonio Azevedo Costa levaram-na, em 6 de novembro de 1940, até à Ponte do Diabo, na Estrada do Redentor, na Floresta da Tijuca.

No transporte, usaram o táxi dirigido por Domingos Antunes Azevedo, conhecido por "Paulista".

Logo ao chegar, "Neli" foi atirada da Ponte do Diabo por Diocesano Martins, que esperava no local. Mas, havia a possibilidade de que ela não morresse na queda. Para certificar-se da morte, Daniel da Silva Valença aguardava no fundo do abismo.

"Neli", entretanto, já chegou morta. Foi esquartejada por Valença, que procurou torná-la irreconhecível a fim de dificultar a identificação e apagar possíveis pistas.

- DOMINGOS ANTUNES AZEVEDO

Dois meses depois, os assassinos de "Neli" estavam preocupados com a possível descoberta do crime.

Em 20 de janeiro de 1941, reunidos, verificaram que o ponto fraco era o motorista do táxi, Domingos Antunes Azevedo.

Decidiram eliminá-lo.

Antonio Vitor da Cruz e Antonio Azevedo Costa, "amigos" do motorista, atrairam-no para um passeio na Estrada da Tijuca. Foram também, Diocesano Martins e Daniel da Silva Valença, este sentado ao lado do motorista.

Num local em que o táxi andava bem devagar, Diocesano desfechou três tiros na vítima, que tombou de bruços sobre o volante.

Valença freiou o carro e o cadáver foi atirado à margem da estrada.

Segundo eles, os assassinatos de "Neli" e do "Paulista", em nome do Partido Comunista, jamais seriam descobertos.

Esses foram alguns dos crimes cometidos pelo PCB, há mais de 60 anos. Mais tarde, muito mais tarde, esse Partido de Prestes não iria juntar-se às dezenas de organizações comunistas que defenderiam a sangrenta luta armada como o único caminho para a tomada do poder.

F. DUMONT


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