segunda-feira, 11 de julho de 2016

OS MORTOS QUE O BRASIL NÃO CHORA. XVI

Charles Rodney Chandler, 12/10/1968, Capitão do Exército dos Estados Unidos.


Charles Chandler sempre admirou o Brasil e dizia para quem quisesse ouvir que o “Brasil era o país do futuro”. Quando conseguiu uma bolsa de Estudos da “The George Olmsted Foundation” para estudar no exterior, não teve dúvidas em escolher o Brasil. Já estava no país há quase dois anos estudando na Escola de Sociologia e Política da Universidade de São Paulo. Queria aprimorar seu português e aprender um pouco mais sobre os usos e costumes do povo brasileiro. Pai de três crianças quando desembarcou no Brasil com a família, sua esposa engravidou em solo brasileiro e a caçula do casal nasceu em São Paulo, em julho de 1968. Em dezembro de 1968 Chandler e sua família iriam retornar para os Estados Unidos, onde ele fixaria residência em Washington – DC onde faria pós-graduação na Universidade ali existente. Sua intenção era lecionar português em West Point para os cadetes.

Naquele 12 de outubro de 1968, Dia de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, Chandler estava deixando a sua casa (Rua Petrópolis, 375, São Paulo – Capital) na companhia de seu filho Darryl, de nove anos, sem saber que a morte lhe esperava na calçada.


Algum tempo antes, um “Tribunal Revolucionário” composto pelos dirigentes da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), Onofre Pinto, João Carlos Kfouri Quartin de Morais e Ladislas Dowbor havia julgado e condenado o Capitão Chandler à pena capital. Como é óbvio, tais tribunais não admitiam o contraditório e nem davam a menor chance de defesa aos seus “réus”.


No dia fatal Chandler estava saindo da garagem com o seu Impala placas 48-12-84 quando foi abordado por dois indivíduos que saíram de um Volkswagen cor bege, que segundo testemunhas, já há alguns dias estava rondando o local. Dentro do automóvel ficou outro individuo pronto para dar fuga aos executores. Os dois homens não falaram nada. Apenas abriram fogo. Antes de fugir do local, os executores jogaram no carro e ao redor dele panfletos com os seguintes dizeres: “Justiça revolucionária executa o criminoso de guerra no Vietname, Chandler e adverte a todos os seus seguidores que, mais dia menos dia, ajustarão suas contas com o Tribunal Revolucionário”; “O assassinato do comandante Che Guevara, na Bolívia, foi cometido por ordem e orientação de criminosos de guerra como este Chandler, agente imperialista notório” e ainda “O único caminho para a revolução no Brasil é a luta armada”; “vamos criar um, dois, três, vários Vietnames”. Desde o início, não houve a menor dúvida que o crime fora cometido por terroristas brasileiros.


Segundo o filho do Capitão Chandler, dois homens se aproximaram do carro quando seu pai estava saindo de ré com o automóvel. Um dos homens era magro, tinha mais ou menos 1,70 m de altura, e vestia pulôver verde e calça escura. Ele ordenou que Darryl corresse para a casa e abriu fogo tão logo o menino saiu das vistas. Ao ouvir os tiros a criança correu ao encontro da sua mãe que também ouvira e se precipitava para a rua. O menino gritava desesperado “estão matando o papai”. Chandler, que estava desarmado, não teve tempo de esboçar nem um único gesto de defesa. O carro e o corpo do Capitão Chandler ficaram crivados de balas; exame posterior revelou que Chandler levou 10 tiros de metralhadora calibre .45 e um tiro de revólver calibre .38.


Testemunhas afirmaram que pelo menos dois outros automóveis (um Fusca azul e um Austin preto) estavam na cobertura dos terroristas.
Charles Rodney Chandler nasceu na Louisiana, USA. Tinha 30 anos de idade quando foi executado. Era casado com Joan Koteletz Chandler e tinha quatro filhos, todos menores de idade: Darryl, Jeffrey, Todd e Luarme (nascida em São Paulo, em julho de 1968). Era Capitão do Exército dos Estados Unidos, formado na Academia de West Point.
Autoria: Vanguarda Popular Revolucionária, executores: Pedro Lobo de Oliveira, Diógenes José de Carvalho Oliveira e Marco Antônio Bráz de Carvalho.


Fontes: Diário do Paraná, edição 03978 de 13/10/1968, primeiro caderno, página 3 e edição 04311 de 28/11/1969, 2º caderno, página 6; Revista o Cruzeiro, edição 0043 de 26/10/1968, página 34; Jornal do Brasil, edição 00201 de 28/11/1969, 1º caderno, página 7; Diário da Noite, edição 13234 de 13/10/1968, página não identificada.
Esclarecimento do autor: este artigo integra uma série intitulada “Os Mortos Que o Brasil Não Chora” e é resultado de minuciosa pesquisa em jornais, revistas e periódicos publicados na época em que os fatos aconteceram. São aproximadamente 120 vítimas. Alguns eram integrantes de Forças de Segurança, outros civis – alguns sem qualquer conexão com um ou outro lado – e os demais eram membros da esquerda que foram “justiçados” (executados) por seus próprios companheiros. A cada publicação contarei a história de um episódio ou de uma vítima. Procurei obedecer a ordem cronológica dos acontecimentos. Todos os artigos já publicados estão disponíveis no site do grupo Ternuma (
www.ternuma.com.br) e na página pessoal do autor no Facebook (https://www.facebook.com/robson.meroladecampos).


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